Filho: Mamãe, menina pode namorar menina?
Mãe: Pode, filho.
Filho: Então menino pode namorar menino também?
Mãe: Pode, filho.
Filho: E menino e menina também pode né, mãe?
Mãe: Pode sim.
Filho (em tom conclusivo): Nossa…Que legal! (E foi brincar).

Esse diálogo entre a Ana e seu filho pequeno, que ela postou no face, deveria ser o diálogo em todas as casas, em todas as TV’s, em todos os blogs, em todas as igrejas que querem falar sobre relações humanas – envolvendo amor e sexo.

***

Esse post é parte da blogagem coletiva sobre a visibilidade lésbica, convocada pelas Blogueiras Feministas.

Dar visibilidade é tornar algo visível. Algo que antes, por alguns motivos, não era visível.

A crítica feminista ao que nos contam do que é a história oficial é um bom exemplo de crítica à invisibilidade: nós aprendemos na escola o nome de vários homens que fizeram revoluções e lutaram pela independência de seus povos – Robespierre, Lenin, Simón Bolivar, Zumbi – mas não costumam nos ensinar sobre as mulheres que lutaram nestes mesmos processos – Olympe de Gouges, Alexandra Kollontai, Manuela Saenz, Dandara.

Não ser visível na história é como não ser um sujeito na história. E de várias maneiras o mundo vai naturalizando algumas práticas sociais como se fossem o “normal”. O que foge a regra é considerado meio esquisito. As meninas e os meninos vão aprendendo que aquele espaço público, da política, das transformações, das ações, são espaços para os homens, que é mais natural que os meninos queiram estar lá. Pras meninas, outras atividades são apresentadas como destino natural (não menos importantes, mas socialmente menos valorizadas).

Tem motivos pra algumas coisas serem ocultadas nesse nosso mundo organizado em torno de opressões e desigualdades: é pra manter as coisas exatamente como estão. Ou seja, pra manter as relações de poder que privilegiam os homens, brancos e heterossexuais no nosso mundo.

***

Ocultar faz com que a gente ache que não é possível ser de outro jeito.

No caso, o ocultamento e a invisibilidade das mulheres lésbicas estão presentes em várias partes da nossa vida social, cultural, política.

Os meninos e as meninas aprendem a querer ser o que tem de modelo por aí. E o modelo de casal, de amor e de sexo, é um modelo heterossexual.

Por exemplo, no cinema.

Se eu tivesse que fazer uma lista de filmes que tem uma historinha de amor e o casal é hétero, praticamente todos os romances ou comédia romântica ou drama ou suspense ou terror que eu já vi se encaixariam nessa lista.

Se eu tivesse que fazer uma lista de filmes que tem casal homossexual, especificamente um casal lésbico, a tarefa ficaria muito mais difícil – porque eu não estou incluindo aqui os filmes pornôs dirigidos aos homens. E se a lista só incluísse filmes em que o casal homossexual não é estereotipado, ficaria mais difícil ainda.

De novo: dar visibilidade é tornar algo visível. Apresentar pro mundo como uma realidade vivida, como uma possibilidade a ser vivida, com liberdade. Sem ser esquisito, sem ser alvo de estranhamento e discriminações, que geram rechaço e violência.

***

Vocês conhecem a história do Relatório Kinsey? Ele foi um cara pioneiro em investigar a sexualidade humana. Seu primeiro trabalho, que descrevia como os homens estavam vivenciando a sexualidade, bombou. Mas aí o segundo foi super controverso e polêmico, porque foi sobre a sexualidade das mulheres.

Imaginem: no começo dos anos 1950, a pesquisa dele demonstrou que 13% das mulheres afirmaram já ter tido um orgasmo em uma relação sexual com outra mulher.

Daí ele foi questionado, meio perseguido e tal. No filme, a companheira dele, ou ele, falou o que explica o tamanho da controvérsia e as consequências do relatório sobre a sexualidade das mulheres. Era algo do tipo: “Que reação você esperava depois de mostrar que as mães e avós das pessoas fazem sexo com outras mulheres?”. Mexeu com a “família”, levantou todo o conservadorismo reacionário (Olha! Rima com Bolsonaro!)

***

Hoje é dia da visibilidade lésbica. É mais um dia de luta por liberdade, além do dia do orgulho LGBT. Porque esse mundo além de hétero-normativo, também é machista. Então, é importante afirmar a visibilidade lésbica, e não basta falar só sobre os gays, homens homossexuais.

Afirmar o direito de ser lésbica é parte do questionamento ao que é a visão machista da sexualidade feminina que – pra muitos homens (desde os bolsonaros até os da esquerda) e, infelizmente, pra muitas mulheres – deve servir para a reprodução, ser passiva, destinada para o prazer dos homens .

Hoje é mais um dia de luta por liberdade, em que reafirmamos:

Basta de lesbofobia! Basta de violência e de ameaças de violência, utilizadas como ferramentas de controle das nossas sexualidades, vidas e corpos.

(Extrato do texto da Fuzarca Feminista: Lésbicas e bissexuais feministas em marcha!)

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Em tempo: pela visibilidade das mulheres que fazem boa música, conheçam Kaki King e Clara Luzia: duas mulheres, lésbicas, que não saem da minha playlist =)

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Mais posts participantes da blogagem coletiva:

29 de agosto: dia da visibilidade lésbica por Talita R da Silva

29 de Agosto: Dia Nacional da Visibilidade Lésbica por Suely Oliveira

 Deixem a mulher homossexual ser livre por Hamanndah

Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual por Sou Minha

Guest Post: Dia da Visibilidade Lésbica por Eliza Viana no blog da Barbara Araújo

Invisibilidade lésbica e as narrativas que precisamos contar por Marcelo

Lésbicas, as mulheres invisíveis por Mari Moscou

Lésbicas Invisíveis por Srta. Bia

Qual é o seu armário por Renata Lima

Sou advogada, sou lésbica, sou cidadã, sou igual a você! por Inquietudine

Visibilidade Lésbica? por Inquietudine

Você já vestiu o seu arco-íris hoje? Não basta ser, é preciso assumir! por Brunella França

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4 comentários sobre “Fragmentos de uma reflexão sobre a visibilidade lésbica

  1. Eu só acho o seguinte,a julgar pelos ciomentários machistas ignorantes que li lá no post sobre a cerveja devassa,acho que primiero tínhamos que trazer mais mulheres para a luta.Vi até mulher defendendo machisto se apoiando naquelas justificativas( ou justificações,sei lá como está agramática agora..)biológicas!
    O problema do Brasil é muito sério,a gente precisa se fortalecer em termos de feminismo primeiro daí partir ára todas as lutas.

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