Quando eu era pequena minha irmã mais velha falava que queria ser astronauta.

Se ela soubesse do que estava acontecendo nesse momento, há 48 anos atrás, talvez dissesse que queria ser cosmonauta =)

Entre os vários fatos e feitos que marcaram a corrida espacial, tem um que não é muito lembrado: a primeira viagem de uma mulher ao espaço.

Talvez o fato não seja tão lembrado porque outro ser humano já tinha ido ao espaço (e voces vão pirar com a reconstituição dessa primeira viagem aqui ). Ou também porque normalmente não interessa pra quem conta a história recuperar fatos tão importantes para as mulheres.

Valentina Tereshkova foi a primeira mulher a ir pro espaço, deu 48 voltas na terra e voltou. O dia do lançamento tá retratado nesse vídeo aí embaixo.

Reparem na expressão dela. É muita coragem e auto-controle, né não?

Essa viagem marca não só a corrida espacial mencionada aí em cima, mas a conquista do nosso espaço aqui na Terra. Por nosso, tô me referindo a nós, mulheres.

Na política, na aviação, no rock, na economia, na engenharia, na ciencia.
Em todo e qualquer espaço que aprendemos ser dos / para os homens, mulheres provaram e provam, na prática, que, se são espaços só dos homens, não é por alguma diferença biológica nossa, mas porque de alguma forma nós fomos socialmente excluídas desses espaços. Em muitos casos, fomos excluídas inclusive de desejar ocupar determinado espaço ou desenvolver alguma habilidade. Quando desejamos, muitas vezes não realizamos porque tem outras ocupações que nos são atribuídas como responsabilidades.

La lucha por el cielo y, por tanto, contra el peso, parecía, ante todo, una ofensiva contra los prejuicios tan tenaces que unos imbéciles con bigote creyeron útiles para alejarlas de los campos de aviación y enviarlas a los trabajos domésticos.

Essa citação foi retirada de um livro lindo Ellas Conquistaron el Cielo, que traz fotos e histórias fantásticas de 100 mulheres que foram pioneiras de alguma forma na “conquista do céu”. Aviadoras, paraquedistas, cosmonautas. As opções destas mulheres na vida pessoal muitas vezes romperam com o que era esperado delas – e das mulheres em geral em cada momento histórico.

Uma das histórias do livro é a da Valentina Tereshkova.
Foi uma decisão dos russos mandar uma mulher pro espaço, como mais um marco na corrida espacial. A curiosidade é que os EUA também tiveram essa ideia. Mas as mulheres selecionadas pelo programa espacial da NASA não puderam concluir o processo, porque no lugar em que se fazia o treinamento, era proibida a entrada de mulheres. Juro. Tem coisas na história que a História oficial apaga de tão constrangedor, né??

Mas aí a Tereshkova, uma jovem operária russa, militante da juventude comunista e paraquedista, foi para o espaço. Foram 48 voltas na terra, durante 70 horas e 41 minutos, entre 16 e 19 de junho de 1963.

Houve muita propaganda em torno desta viagem, a Tereshkova foi por algum tempo um símbolo da igualdade entre os sexos na ex-URSS.

Mas os avanços das mulheres não são nem lineares, nem acontecem sem enfrentar reações. No caso, alguns integrantes da missão que enviou a Tereshkova pro espaço – que não faziam a mínima questão de que mais mulheres ocupassem mais espaço nessa área – ficaram desqualificando ela, dizendo que não foi uma missão exemplar, que ela passou mal, e tal. Alguma semelhança com outros discursos que sustentam desigualdades por questões biológicas não é mera coincidencia. É machismo mesmo. Mas vira e mexe temos aliados, e um deles questionou esses malas aí de cima, dizendo que não era pra viagem ter durado tanto tempo, não tinha estrutura no Vostok 6 pra tanto e que por essas condições era claro que qualquer pessoa sentiria um mal estar (vários outros seres humanos que foram pro espaço também passaram mal).

Os controladores do Vostok 6 programaram alguma coisa errada, e ele quase saiu da órbita. A aterrisagem também não foi como planejada. E ela percebeu o que estava errado, avisou os controladores que tavam na terra, e eles demoraram pra acreditar que ela estava certa. Hum, machistas?

Só em 2007 ela contou sua opinião e sentimentos sobre essa viagem histórica. Nesse período, participou de atividades das mulheres comunistas chegando a ser inclusive vice-presidenta da FDIM (Federação Democrática Internacional de Mulheres).

Por Carlos Henrique Menegozzo

A viagem da Valentina Tereshkova é um marco pra nós mulheres na conquista do nosso espaço.

E nós queremos mais.

 

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3 comentários sobre “Um passo, em busca do nosso espaço

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