(Publicado em Blogueiras Feministas)

Quem nunca se preocupou em trocar o lixo do banheiro, que sempre achou que este desaparecia num passe de mágica, deve ter ficado preocupada ao ler a matéria sobre a dificuldade de se encontrar empregadas domésticas nas grandes metrópoles, que saiu domingo na Folha Cotidiano.

Limpar o banheiro, a cozinha, lavar roupa suja, estender e passar, lavar o box do chuveiro, o vidro da janela, o chão da área de serviço. As empregadas domésticas fazem todo aquele serviço que ninguém gosta de fazer. As diaristas tem um trabalho ainda mais intenso. Muitas vezes, tem que fazer o trabalho de uma semana em um dia. É um serviço penoso, pesado, que dá dor nas costas, que te expõe a produtos de limpeza que podem fazer mal pra saúde.

Fora cozinhar, não conheço muitas outras tarefas domésticas que as pessoas dizem gostar de fazer.

O enfoque da Folha escancarou a preocupação de um setor da sociedade que está ou estava (mal) acostumado a ter alguém 24 horas disponível. Os exemplos tinham a ver com as empregadas domésticas que dormem no serviço, trabalham nos finais de semana, folgam a cada 15 dias.

Gente, nem quem adora muito muito muito o emprego que tem gostaria de dormir nele, né?

Alguma coisa tá errada em uma sociedade em que é super normal que você repasse pra outra pessoa uma série de tarefas necessárias pro seu bem estar. Tarefas que você não gosta de fazer, mas não vive sem. A outra pessoa pode ser sua mãe, sua avó, sua irmã, sua namorada – que fazem de graça. Ou pode ser uma empregada doméstica, ou diarista, que faz por um salário bem baixo. E aí tem gente que ainda reclama que “tá caro”.

O mínimo, pra começo de conversa quando a gente fala de emprego doméstico, deveria ser considerar que as mais de 7 milhões de pessoas que são empregadas domésticas – mais de 90% mulheres, a maioria negras – são trabalhadoras/es, que deveriam ter direitos trabalhistas garantidos, como a obrigatoriedade do FGTS e 40 horas de jornada semanal. Mas a realidade é outra, como a própria reportagem aponta: apenas 27,5% tem carteira de trabalho assinada.

E, um entrevistado mencionou que, como nos países ricos, a tendência é que ter empregada doméstica viraria luxo. Ele só esqueceu de comentar que em vários países da Europa, que não tinham a tradição do emprego doméstico como nós temos aqui no Brasil, o emprego doméstico está crescendo. Babás, cuidadoras, empregadas domésticas. Ganham pouco, pouquissimo. Na maior parte das vezes são imigrantes, em uma situação irregular no país.

Acho que é muito difícil discutir o assunto do emprego doméstico sem olhar pro trabalho doméstico como um todo, incluindo o trabalho doméstico não remunerado que nós fazemos todos os dias.

E eu parto aqui da premissa de que o trabalho doméstico não é responsabilidade natural das mulheres. Mas o que ainda acontece é que somos nós que gastamos mais horas das nossas vidas fazendo esse trabalho. A média semanal é de 25 horas para as mulheres, e 10 horas para os homens. E, vejam só, a média entre as mulheres casadas aumenta pra 29,2 horas! Ou seja, ser casada/dividir a casa acaba dando mais trabalho!!

É a combinação da desigualdade social, de gênero e racial que permite que 16,4% das mulheres ocupadas no Brasil sejam empregadas domésticas. É a principal ocupação feminina. Pra esse número diminuir, precisa ainda de muita coisa: mais alternativas de empregos decentes e com garantia de direitos para as mulheres, ampliação dos serviços públicos, garantia de creches públicas e educação infantil em horário integral, e uma profunda alteração na divisão sexual do trabalho.

Ou seja, o Estado tem que assumir a garantia de serviços que rompam com a idéia de que a produção do viver deve se dar só dentro de casa. Restaurantes populares , lavanderias coletivas e creches são um caminho. E os homens tem que assumir sua responsabilidade nas tarefas domésticas. Não basta só ajudar de vez em quando a trocar uma lâmpada ou lavar a louça. Precisa dividir, assumir as tarefas.

Um país com justiça social não pode ter como principal ocupação feminina um serviço que ninguém mais quer fazer.

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