Lá em Londres tem um parque, o Hyde-Park, e nele tem um canto que é o “Speaker’s corner”.

A galera sobe no banquinho e começa a falar sobre o que quer. E uma galera fica ouvindo, e interage no debate. Quando eu fui tinha uma velhinha bem reaça falando, e do outro lado um homem, muçulmano, vestido com as roupas que vendem nas lojas bem ocidentais de Londres ou aqui de São Paulo.

E a questão dele era “As mulheres islâmicas são oprimidas?”

E ele provocava o debate daquele jeito que um bom orador que quer fazer um monólogo e não estabelecer um diálogo faz: sem perder o controle em momento nenhum.

Primeiro disse: quem acha que as mulheres islâmicas são oprimidas levanta a mão. E uma galera levantou.

Depois, perguntou “WHY???”. E um rapaz disse “BECAUSE elas são apedrejadas se cometem adultério”. O orador logo disse que esse não era um argumento, já que os homens também são condenados por adultério pelo Islã. Não confio tanto na minha memória, mas também não confiei no orador. Nunca ouvi nenhum caso de condenação de um homem por adultério, por chibatadas ou apedrejamento. Pelo google, a informação do comitê internacional contra apedrejamento é que 24 mulheres e homossexuais aguardam hoje execução por apedrejamento no Irã. Nenhum homem heterossexual. Mais uma pista pra desconfiar do orador.

E aí ele perguntou WHY?? de novo (ahan, ele falava gritando), e uma moça respondeu “por causa do véu”.

E aí ele conseguiu o que queria, tinha um discurso prontinho em torno de um argumento que repetiu diversas vezes: “o problema das mulheres islâmicas são vocês, mulheres brancas, ocidentais e liberais”. Foi um show de agressões verbais contra as mulheres ocidentais, disse que umas tinham que usar burca, disse que as mulheres ocidentais são hipócritas, etc. Uns homens ocidentais davam risadas com algumas afirmações do orador.

PERAÍ.

Os homens mais razoáveis que me desculpem, mas a maioria de vocês são realmente muito arrogantes, prepotentes, hipócritas e machistas.

Em primeiro lugar, o debate é enviezado se a pergunta parte de um “as mulheres islâmicas são oprimidas?”

Elas são, assim como as mulheres de todo o mundo, mas a opressão é claro que se manifesta de formas diferentes de acordo com uma série de fatores: se é uma camponesa que trabalha na agroexportação no Chile, se é uma jovem do Leste Europeu que foi traficada pra ser sexualmente explorada em algum país da União Européia, se é uma mulher branca de classe média no Brasil, se é uma viúva iraniana que ficou com dois caras depois que o marido morreu, se é uma adolescente na Nigéria e pode ser submetida a mutilação genital, se é uma negra que trabalha como diarista em São Paulo, e por aí vai.

A opressão das mulheres infelizmente tá no mundo todo, e classe, gênero e raça se combinam para configurar a manifestação material e ideológica dessa opressão em cada contexto. Aí se juntam também o aspecto da sexualidade, da divisão internacional do trabalho, da religião, da idade.

Quem se beneficia com a opressão das mulheres, em cada país, e no mundo todo? Essa deveria ser uma pergunta relevante pra fazer esse debate. Aprendi com a Daniele Kergoat que os homens como grupo social são privilegiados com a opressão das mulheres.

Então, voltando ao PERAÍ!!

Quem foi que redigiu as leis discriminatórias contra as mulheres??? Quem é que predomina nos espaços de poder, na politica ou na suprema corte que definiu, por exemplo, a execução da Sakineh? Quem é que bate a cada 15 segundos em uma mulher no Brasil?? Quem é que não precisa se preocupar com lavar o banheiro porque sua esposa, sua mãe, sua filha, sua irmã ou sua empregada doméstica vai lavar?? Quem é que compra o corpo das mulheres e lucra com o tráfico de mulheres?? Quem é que estupra as mulheres em conflitos armados e contextos de guerra??

São os homens. Ahan, os homens.

Não são as mulheres do ocidente que oprimem as mulheres islâmicas do ponto de vista do que é a opressão machista. Elas tem opiniões e fazem o debate, por exemplo, sobre o uso da burca. Podem discordar, concordar, as vezes as européias são de fato bem arrogantes e eurocentricas, assim como os homens europeus, na hora de formular seus argumentos e análises. Mas isso não tira os homens do seu lugar de opressores, e não tira o machismo do conjunto da sociedade.

***

Há umas duas semanas o “rodeio das gordas” virou esporte na UNESP.

É possível que a iraniana Sakineh seja executada amanhã.

O choque da sociedade com a opressão das mulheres varia de acordo com a crueldade das atrocidades que vira e mexe acontecem contra as mulheres e as repercussões de cada caso. No nosso dia a dia aqui, as vezes a coisa é tão sutil que o machismo é naturalizado e a gente tem que lembrar todo mundo que ele ainda existe.

***

E depois de cansar do orador aí de cima, vimos essa cena aqui no Hyde-Park.

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Um comentário sobre “um assunto internacional

  1. Apresentei um trabalho, semestre passado, sobre as mulheres no islã e sobre o estupro como arma de guerra, em que tive que analisar o lado do opressor também (como se já não estivéssemos cansadas de ouvir esse lado)..

    Incrível a quantidade de líderes religiosos se empenhando pra dizer que as mulheres não são oprimidas no islã – enquanto o movimento de mulheres recebe diversos pedidos de solidariedade por parte de afegãs, palestinas, ..

    Me lembra os líderes religiosos pró-morte (das mulheres) condenando a legalização do aborto por aqui..

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