Se a gente pensa no motivo pelos quais os homens estão na política, alguns vem a mente: por condições dignas de trabalho e sobrevivencia, por olhar a realidade e perceber como funciona a dominação e a exploração, e concluir que tem alguma coisa errada/injusta/nojenta, por saber que essas injustiças não são naturais e, portanto, podem ser transformadas, ou por tantos outros motivos. Hoje em dia se você pergunta por aí um motivo pelo qual as mulheres lutam, é quase certo que vão te responder: pra construir um mundo melhor pros seus filhos. Afinal, a gente é movida por amor, né?

As pessoas tem diferentes maneiras de expressar seu amor, e essas formas variam de acordo com o contexto. Mas parece que independente do contexto as mulheres expressam seu amor de uma forma principal: dedicando sua vida ao cuidado dos outros (filhos, maridos, etc). Mesmo se a gente não tem filhos ou maridos a gente carrega essa “vontade/disponibilidade/capacidade/habilidade” porque dizem que a gente tem um tal de “instinto materno”.

E daí, num debate sobre politica, é um pulo pra dizer que as mulheres são melhores pra exercer um cargo ou outro porque carregam em si esse instinto materno, essa experiencia de cuidar dos outros.

Vindo de homens, que há muito tempo são maioria no exercício da política, me parece que é um atestado de burrice coletiva. Se as mulheres são naturalmente melhores, por que são os homens que historicamente estão nesse lugar? Eles acham que mesmo fazendo pior, são eles que tem que fazer? (então por que não querem fazer o trabalho doméstico, já que também afirmam que fazem pior??) Ou eles acham que essa habilidade natural das mulheres serve mais pra ser usada dentro de casa no cuidado dos seus filhos, na preparação de suas jantas gostosas, no lavar/passar/guardar cotidiano das roupas? Ou eles sabem que na nossa sociedade o espaço da politica é um espaço de poder, de exercer, criar e manter seu poder? Desconfio que este último seja um dos motivos que eles tem pra querer continuar continuar sendo donos desse espaço.

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A exclusão das mulheres do mundo público tem a ver com a construção histórica da desigualdade entre homens e mulheres. Antes do capitalismo, já tinha desigualdade, mas o capitalismo separou o mundo público do mundo privado, estabelecendo uma hierarquia entre eles. A este processo, corresponde a separação e hierarquização da esfera da produção e da reprodução, sendo atribuído mais valor as tarefas desempenhadas no mundo público, da produção, pelos homens.

As mulheres levantaram suas vozes contra sua exclusão do mundo público e dos direitos. Algumas mais isoladas, como Olympe de Gouges, na revolução francesa (frente à declaração dos direitos do homem e do cidadão ela escreveu a declaração dos direitos da mulher e da cidadã – e foi guilhotinada). Outras mais organizadas como as socialistas que reivindicaram o direito das mulheres ao trabalho e ao voto, junto com as sufragistas. Ou todas as mulheres organizadas em sindicatos e partidos de esquerda que lutaram para garantir cotas mínimas para as mulheres nos espaços de decisão dessas organizações, o que demandou também a garantia de creches nos encontros e congressos para possibilitar que mais mulheres tivessem condições concretas de participação. É nessa trajetória que se insere a importância da eleição de uma mulher para presidenta do Brasil.

Essa trajetória nos ensinou que ter mulheres na política é um processo de disputa cotidiana que passa por enfrentar cara feia, desqualificações, agressões, derrotas e vitórias. Mas mais que isso, nos ensinou que não basta uma mulher em um espaço de decisão. São necessárias muitas mulheres organizadas na sociedade e nos espaços de decisão, articuladas em uma luta comum contra todas as formas de opressão.

Ou seja, como o Boff, eu também acho muito importante a gente eleger uma mulher pra presidencia do Brasil.

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Mas, confesso que me deu um arrepio a formulação do Boff sobre trabalho e cuidado. Vixi.

No nosso feminismo, a gente discute a importancia de ampliar a noção do trabalho. O pensamento economico dominante considera como objeto de seu estudo o que se passa na esfera do monetario e mercantil. Tudo aquilo que principalmente as mulheres fazem em casa, que alguns chamam de amor, não é considerado economico. Pra muitos nem é assunto da economia, é uma externalidade.

A gente não chama de amor, chama de trabalho. Trabalho gratuito que garante a produção cotidiana da vida, pra que o trabalhador esteja devidamente vestido e alimentado para ir trabalhar de manhã todos os dias. Não é cuidado em abstrato. É um trabalho bem concreto e as mulheres gastam em média 25 horas por semana fazendo (os homens, gastam 10 horas. no resto do tempo…. fazem política?) Se as mulheres não estivessem cotidianamente fazendo o trabalho doméstico e de cuidados ia custar muito caro pro Estado, pras empresas, e mais horas pros homens.

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“Todo revolucionário é movido por um profundo sentimento de amor”, disse o Che. Tenho impressão de que ele se referia a um tipo de amor sobre o qual não estamos acostumadas a ler por aí.

Não se referia ao amor das mulheres que vira cuidado, e o amor dos homens que pode virar bombom, flores, aliança. Que visão mais estreita de amor. Amor-sexo-casamento-maternidade. Estreito, heterossexual, conservador.

Acho que ele se referia ao amor que vira indignação e luta.

Quem sabe se as pessoas pensarem mais em igualdade, liberdade, revolução e luta, vamos poder falar de amor a partir de um ponto de vista menos egoísta, mais humanista/feminista/socialista.

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