Eu não tenho nojo de pelos. Tenho nojo do machismo, do pensamento e da escrita machista. Imagina uma conversa com esse tal de Pondé… nojo.

Tô sendo despolitizada? Talvez.

Mas por que é mesmo que a gente tem que saber a opinião desse cara? Ah, porque ele escreve na Folha… (Caguei pra Folha)

***

O que ele escreveu um monte de revista feminina escreve, de outro jeito. E o mercado, em quase toda esquina, oferece pra gente de tantos outros jeitos: com cera, creme, gilete, laser, que mais? Um monte de namorado pede pra namorada.

***

Esse assunto da depilação faz parte de uma categoria de desqualificações do feminismo que sempre temos que ouvir: “As feministas não depilam”, “As feministas não são femininas”, “As feministas precisam é de um pau” (e que venha acompanhado de um saco peludão).

Ser ou não ser “feminina”. O que é ou não “feminino”. Quem quiser que se aventure nessas definições. Pra mim, basta dizer que tudo aquilo associado ao feminino que significa de alguma forma submissão, não nos serve.

Estamos aí com um monte de salto alto, que deixam nossas pernas (depiladas, claro) lindas, super femininas. Nossas unhas pintadas de vermelho ou outra cor marcante – nada mais feminino (mas tome cuidado pra não ser “vulgar”). Nossas axilas, pernas, virilhas (e tudo o mais) super depiladas, super femininas. O espartilho que molda nosso corpo conforme manda o figurino feminino… ah não, esse a gente já superou e agora já podemos respirar. Mas não podemos comer muito, porque pneuzinho não é feminino. Nossa voz calma e doce, nossa paciencia e sensibilidade… são mais algumas características do nosso feminino.

Se estas características e apetrechos do “feminino” em alguma medida nos impedem de:

  • correr, pular, dançar
  • abrir a latinha de cerveja
  • usar regata no calor
  • comer aquela panqueca de doce de leite depois do almoço
  • responder a altura frente a uma grosseria qualquer
  • gritar quando a gente acha que tem que gritar
  • levar a sério o que virou brincadeira só depois que a gente levou a sério,
  • etc.

—-> enfim, se de alguma maneira o que é feminino restringe nossa autonomia, independência e liberdade: Esse feminino não nos serve.

***

E sobre a depilação: o feminismo reivindica que temos o direito de controlar nosso corpo e nossa vida.A gente critica, portanto, todas as formas de imposição de padrões de beleza e magreza, de comportamento, de sexualidade, de corpo.

Qualquer pessoa que conhece uma menina que se depila sabe que ou ela se acostumou com a dor e incômodo da depilação, ou ainda sofre todas as vezes que passa por esse procedimento. E não faz mal perguntar por que a gente continua se depilando. Por que mesmo??

A gente introjeta um monte de coisa, a gente se acostuma com o costume, muitas de nós afirmamos que é feio ficar sem depilar. Um dos problema é que muitas de nós já passou por uma ou mais situações como essas: ficou com calor porque o tempo virou e de repente tava aquele calor dos infernos e você não tinha depilado: foi de calça; conheceu um carinha do nada e tava bem a fim de transar mas não foi adiante  porque tinha uns pelos a mais e bateu uma insegurança; perdeu a piscina ou o mar porque não deu tempo de depilar; etc.

“Ah, mas hoje tem outras formas mais rápidas e indolores” – e mais uma vez, o mercado te oferece uma parafernália de produtos pra você se sentir mais livre, e ainda assim, feminina. TÓIM!!

***

Se a gente deixa de fazer alguma coisa que a gente quer muito porque não está nos trinques conforme manda o padrão, é imposição, é opressor, e a gente tem sim que discutir, questionar, inventar um jeito de fazer diferente. Esse é o feminismo de muitas que vieram antes da gente e começaram o questionamento às formas de controle sobre o nosso corpo e comportamento, e é o nosso feminismo, que o artigo nojento do Pondé comprova que segue sendo super necessário e atual.

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4 comentários sobre “Sobre pelos e nojos

  1. Não dá para levar a sério as reproduções que uma mídia como a Folha de São Paulo, faz…Afinal, ela reflete os desejos e anseios de uma sociedade: machista, homofóbica e racista. E repete frases tão cansativas e batidas, como por exemplo:

    * Feminista queima sutiã!

    *Toda feminista quer ser homem!

    E por aí vai…Mas quer ser homem, ou quer ter o direito que a história reservou somente para eles. Costumo brincar com meus alunos que se uma nave espacial acessasse a prateleira de conquistas históricas de uma biblioteca, certamente iria achar que nossa sociedade é formada só por homens. Afinal, a sociedade gosta de generalizar: O homem, fez isso, o homem fez aquilo…

    Não sou radical, mas acho que usar esta história de homem filosófico, o homem da história, já está mais que ultrapassada, como diria Butler, “temos que superar estas categorias de gênero”…Mas como fazer isto, em uma sociedade que ainda espera ver o sexo do bebê para comprar o enxoval? A cor define o gênero?

    Posso ter fugido um pouco do post inicial, mas é que são tantas questões revoltantes e reproduzidas por aí como verdades absolutas, por pessoas que têm a “credibilidade” da população “elitizada’ que penso se não seria necessário queimar logo estes sutiãs para dar algo de concreto e verdadeiro para que eles noticiem…

    Pêlos,ou a falta deles e outras condições para uma mulher ser considerada mulher? Tá faltando mesmo pauta, nos nossos jornais…

    ps; Gostei do seu espaço virtual!

  2. Essa questão da depilação é um ponto bem delicado…
    É incrível como demoramos para nos libertar de algumas coisas que estão tão introjetadas na sociedade.

    Eu realmente me sinto menos feminina quando não estou depilada.
    E por tudo que já conversei com meus ex namorados, esse lance de estar depilada ou não, faz mais diferença no psicológico das mulheres do que no tesão dos homens.

    Acredito nas coisas que você falou mas gostaria de ter acesso ao texto da Folha que você menciona.

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